MEMÓRIAS DA RAINHA
Próximo ao final do ano de 1974, o escritor Osman Lins iniciava uma experiência literária inusitada. Começava a escrever um romance – o último que lançaria em vida, concluindo-o no ano seguinte e lançando-o em 1976. Seu título, A rainha dos cárceres da Grécia.
O fato extraordinário a ser registrado é que, conforme depoimento de Osman Lins, o livro foi escrito sob a forma de diário pessoal, com intervalos entre as datas. O dado inédito é que o diário não se refere a confissões pessoais de Osman Lins, mas as de um personagem por ele criado, tornando simultâneas duas atividades em princípio distintas: a do ato de escrever o livro sob a forma de diário (plano do autor) e a criação da realidade ficcional nele fixada (plano do narrador), seguindo o mesmo calendário. Como se informou acima, é o próprio Osman Lins quem dá conta dessa coincidência entre vida e literatura:
O romance é escrito em forma de diário (com as datas dos dias em que eu, o autor verdadeiro, escrevia as respectivas entradas) e esse diário é invadido aqui e ali pelo noticiário da imprensa. Mas a quem é atribuído, no livro, esse diário que escrevi ? A um professor secundário de História Natural (LINS, 1979, P. 250).
Outra particularidade digna de nota é a indicação, na folha de rosto, de que o diário é um “romance”. Romance que se nega enquanto romance, pois, a não ser essa ressalva do autor, o texto não se assemelha a nada existente na tradição romanesca do ocidente com essa rubrica genérica. Na verdade, a aceitação tácita do rótulo de romance problematiza a forma romance, mesmo se se tiver em mente os exemplos mais revolucionários surgidos em qualquer tempo. Nesse sentido, A rainha dos cárceres da Grécia é um excepcional anti-romance. Trata-se da culminância de um projeto deliberado do autor em romper com todas as convenções romanescas conhecidas.
Se observarmos a trajetória intelectual de Osman Lins, constataremos que, desde meados de 1960, ele intensifica suas preocupações teóricas e práticas com novas formas de escrever narrativas de ficção. Instigado por Esdras do Nascimento a definir o que entende por romance, Osman Lins (entrevista de 1969) responde com evasivas, numa evidente atitude de desconforto conceptual diante do problema: “A pergunta poderia levar-nos à controvertida questão dos gêneros: ‘Que é o romance? A novela? Como se distinguem do conto?’ Concedamos-lhe, portanto, maior amplitude” (LINS, 1979, p. 153 - grifo meu).
Em suma, A rainha dos cárceres da Grécia é um romance (a despeito de todas as restrições sobre a validade desta designação, quando aplicada a este livro) sobre o romance, sem abdicar do contacto com a realidade social e histórica em que está inserido concretamente o autor (PAES, 1995, p. 33-34).
Forma híbrida por excelência, desde as origens, o romance radicalizou, no século XX, o modo de apropriação de outras formas textuais e discursivas (escritas e orais), abrindo consideravelmente sua estrutura interna à invasão de vozes mais ou menos estranhas a seu repertório convencional. A rainha dos cárceres da Grécia faz parte desse universo experimental. É o advento da metanarrativa, em termos sistemáticos. Enquanto manipulação ocasional dos bastidores da criação, a tática remonta à própria origem da narrativa literária.
Através de diferentes métodos e utilizando os mais variados recursos e artifícios composicionais, a metanarrativa pôs em evidência a crise do romance, no interior do próprio romance, desenvolvendo questões fundamentais para seu futuro e sobrevivência. Romance do romance, a metanarrativa privilegia três questões; a crise do sujeito, a crise da representação romanesca e a crise institucional do romance.
Estas reflexões e apontamentos, mais ou menos aleatórios, são destacadas para introduzir comentários acerca da ritualização da memória em A rainha dos cárceres da Grécia. Esse romance completa as relevantes experiências ficcionais do autor, iniciadas com Nove novena (1966) e Avalovara (1973).
A obra é uma metanarrativa – embora não se reduza a essa faceta - no sentido estrito do termo: um texto voltado para sua própria construção, em primeira instância. Ou, se se preferir uma nomenclatura talvez mais divulgada, uma metaficção historiográfica, conforme a orientação teórico-crítica de Linda Hutcheon (1991), com a vantagem de incorporar o elemento referencial externo com o qual toda obra de arte dialoga, implícita ou explicitamente. Aliás, o narrador chama a atenção do leitor para esse aspecto, escamoteando a “ilusão referencial” (RIFATERRE, 1984, p. 99-102): “Toda obra de arte configura a sua própria teoria” (LINS, 1977a, p. 57).
A rainha dos cárceres da Grécia não esconde o arcabouço de sua arquitetura. Pelo contrário, exibe-a escandalosamente e nela concentra considerável esforço de reflexão sobre a autoconsciência narrativa: “Acentuo aqui uma vantagem sobre os narradores: lidam com personagens e eu lido com um texto” (LINS, 1977a, p. 151 - grifo meu).
É conveniente, a esta altura, promover um resumo do livro, a fim de que o leitor se familiarize com a matéria nele contida, sugestão do próprio texto. Assim, terá uma idéia, ainda que provisória, da totalidade da obra e suas implicações textuais discursivas.
Que vale o resumo de um livro? Prática superficial, difunde e reanima a idéia corrente segundo a qual a história é o romance, não um de seus aspectos, dos que menos ilustram a arte de narrar. (...). Aqui, porém, resumir os fatos encadeados no livro que iremos comentar é indispensável (LINS, 1977a, p. 10) – grifo do autor.
Sem esse expediente, “ficaria o leitor na posição de alguém que presencia um debate sobre o qual lhe faltam referências” (LINS, 1977a, p. 10).
O romance A rainha dos cárceres da Grécia é escrito sob a forma de diário, em fragmentos sucessivos, abrangendo o período que vai de 26 de abril de 1974 (data do primeiro fragmento) até 23 de setembro de 1975 (último fragmento), por um professor de História Natural de escola secundária, leitor voraz e contumaz de livros. Este narrador, cujo nome não é referido, mora em São Paulo e, tendo perdido a amante, morta tragicamente num acidente (atropelada por um caminhão), encontra-se, no momento da escrita do diário, sozinho no mundo. Dispõe-se, então, algum tempo depois da morte da amada, Julia Marquezin Enone (doravante mencionada pela sigla do nome, JME, opção referencial sugerida pelo próprio romance), a homenagear-lhe a memória intelectual, patrocinando a publicação do livro, um romance, que ela lhe deixou como única herança material, incompleto e quase inédito. A única versão conhecida foi distribuída em cópias mimeografadas, totalizando 65 exemplares. Os editores, a quem a obra foi enviada para apreciação e publicação, recusaram-na. Decide-se o narrador a custear a edição, acrescentando-lhe um estudo crítico de sua própria autoria, um ensaio sobre a estrutura do romance, intitulado “A rainha dos cárceres da Grécia”. Além disso, o narrador anota em seu diário comentários sobre seu relacionamento amoroso com a autora do livro. Em outros momentos, limita-se a recortar material jornalístico, colando-o no diário. Tem-se, deste modo, um texto extremamente mesclado. Este, o entrecho do livro.
Sobre esse material, o narrador desenvolve, pelo menos, cinco blocos de assuntos, habilmente articulados entre si, constituindo um tecido narrativo denso e altamente complexo nas relações internas que sugere. Os cinco blocos são os seguintes:
1 – o narrador e suas lembranças da amada – o resgate do perfil integral de JME;
2 – a história pessoal de JME, do nascimento à morte, através dos documentos que deixou;
3 – o conteúdo do romance escrito por JME, “A rainha dos cárceres da Grécia”, narrado e protagonizado por Maria de França – o leitor toma conhecimento desse texto pelos comentários do narrador a seu respeito e pela citação de trechos da narrativa;
4 – o noticiário jornalístico, subdividido em dois outros blocos:
4.l – matéria sobre o INPS e seu presidente, Reinhold Stephanes: burocracia, emperramento da máquina administrativa, corrupção e promessa de correção das injustiças sociais;
4-2 – matéria sobre um incidente entre a polícia e a fuga de menores de uma instituição assistencial, de carácter oficial;
5 – três fragmentos, esparsos ao longo da narrativa, de Alice no país das maravilhas (1865), de Lewis Carroll – os dois primeiros com identificação de fonte bibliográfica e o último sem qualquer indício de sua origem.
Note-se que os blocos 1 e 2 podem comportar uma espécie de desdobramento interno, por se restringirem a aspectos ainda mais peculiares e diferenciados do narrador e de JME.
Assim, o bloco do narrador é particularizado por conter reflexões do presente, sem ligação direta aparente com o propósito de recompor o perfil da amada.
Na história pessoal de JME, o narrador incorpora, à maneira de apêndices, trechos confessionais da amante, em fragmentos autônomos (escritos em papéis avulsos, bilhetes, recortes de jornais, anotações diversas e até conversas registradas num gravador).
Tensão entre o vôo livre da imaginação, governado pelo princípio da invenção, e a reflexão crítica do objeto criado, o texto incorpora fragmentos textuais e discursivos das mais diversas procedências e natureza (recortes de jornais, letras de música popular, citações eruditas, noticiário de rádio e TV e outros), compondo um formidável mosaico narrativo. Metanarrativa no mais alto grau de desempenho criador, porquanto metaforiza o ato de escrever ficção como atividade que constrói, mediante artifícios próprios, uma realidade tão convicta de sua existência autônoma quanto a experimentada pelo leitor. É a crise da representação romanesca evidenciada na criação.
No ensaio crítico, o comentário do narrador abrange a maioria das questões cruciais relativas à literatura, desde a polêmica da autoria (atualíssima!), até problemas de recepção crítica, passando pela discussão da intencionalidade autoral, métodos interpretativos do leitor, considerações téorico-críticas sobre a construção de categorias específicas da narrativa de ficção (personagem, tempo, espaço, linguagem literária, simbologia dos objetos referidos e outros aspectos).
Autêntico e instigante jogo ficcional, a voz narrativa cria, simula e dissimula problemas cuja solução depende da perspicácia do leitor, a começar do narrador, duplo personagem (leitor privilegiado do romance da amada e autor de seu próprio diário).
Afirma, logo nos primeiros momentos do diário, que o editor, “ao publicar um estudo literário, dispõe de um público importante, ávido, mais numeroso que o público – real ou possível – da obra analisada e que talvez nem julgue necessário conhecê-la” (LINS, 1977a, p. 4). A alfinetada refere-se à pratica estruturalista dos anos 1970, mencionada expressamente no romance, a qual grassou nas universidades brasileiras, com levantamentos estatísticos e esquemas rígidos de análise que engessavam o texto literário numa camisa de força crítica. Mencione-se, de passagem, mais uma coincidência entre o autor e o narrador do diário. Osman Lins vivenciou, com declarada aversão, o auge da voga estruturalista na universidade brasileira, quando exerceu o magistério superior –lecionou literatura brasileira na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Marília, São Paulo, a partir de 1972, abandonando a profissão algum tempo depois, após desiludir-se com o trabalho docente. A evolução dessa trajetória intelectual encontra-se publicada numa série de seis artigos, sob o título abrangente de “O ensino universitário”, incluído em O ideal e da glória: problemas inculturais brasileiros (1977b).
Publicando o romance da amada com um prefácio apenso, tentando evidenciar suas artimanhas narrativas e seu eventual sentido, o narrador aparentemente cai na armadilha que ele próprio denuncia. No entanto, o leitor atento percebe que o estratagema constitui um logro, habilmente formulado: o desvelamento crítico acirra, adensa e intensifica a ambigüidade dos conteúdos narrativos, a pretexto de esclarecê-los. O autor de um ensaio crítico sobre determinado texto literário não apreende por completo seu significado profundo. Cabe-lhe apenas mais uma versão interpretativa, não necessariamente a melhor. O professor de História Natural não ignora esse princípio e reconhece que, até mesmo o escritor que reivindica para si próprio o conhecimento de sua criação, comete uma falácia: “Nem mesmo o autor é testemunha incontestável: ele não domina integralmente a sua criação, na qual subsistem componentes obscuros” (LINS, 1977a, p. 174).
Não só o livro da amante é citado. Há transcrições de livros eruditos, colagens de noticiário jornalístico, pondo em cheque a noção de autor, orientação que ele ironicamente minimiza, através de uma pergunta retórica: “Posso indagar ainda: assente que o autor não existe, teria eu sido amante de ninguém ?” (LINS, 1977a, p. 5), referindo-se à amante e ao livro escrito por ela. Joga intertextualmente com o texto alheio, preserva para si a autoria, uma vez que, ao deslocar os textos apropriados de seus contextos originais, confere-lhes sentido particular, torna-os de sua “propriedade”. Nesse caso, a colagem “apela para a competência do leitor, estimula a máquina da leitura que deve produzir um trabalho, já que, numa citação, se fazem presentes dois textos cuja relação não é de equivalência nem de redundância” (COMPAGNON, 1996, p. 41).
Obediente ao rigor acadêmico que exige informação das fontes de consulta, abala a confiança do leitor nessa certeza, quando, em nota de pé de página, cita uma obra de Massaud Moisés com o título empírico modificado: “Dicionário de Termos Literários e Ocultistas”, S. Paulo, Cultrix, 1974” (LINS, 1977a, p. 106). Engano do consultor ou erro deliberado? A resposta não é, certamente, relevante para o conhecimento intrínseco da obra, mas vale como demonstração de um dos inúmeros recursos singulares utilizados pelo autor para construir sua obra, na tensão permanente entre mundo real e mundo imaginário. De qualquer modo, o título do livro de Massaud Moisés pertence duplamente ao imaginário artístico: integra um livro de ficção e resvala para a “falsidade” bibliográfica, um título inventado pelo narrador. Essa referência não é da mesma natureza que a de dezenas de outros autores e obras citados com fidelidade, de acordo com a memória intelectual do leitor empírico que pode conferir a “veracidade” das informações na realidade extra-literária. Assim, em outra referência paralela, faz conviver, no âmbito restrito de A rainha dos cárceres da Grécia, personalidades conhecidas do autor (Anatol Rosenfeld e Hermilo Borba Filho, por exemplo) com personagens em sentido estrito (só tem existência real no texto literário), todas compartilhando o mesmo destino irreversível de criaturas de papel.
Inversamente, portanto, o narrador, ao comentar a estrutural ficcional de “A rainha dos cárceres da Grécia”, denominando-a de “universo instrumental fechado” (LINS, 1977a, p. 45), utiliza-se dos conceitos de “meios-limite” e de bricolage, formulados por Claude Lévi-Strauss em O pensamento selvagem, para abonar sua afirmação, referência bibliográfica que, devidamente indicada em nota de rodapé, corresponde à realidade factual. A citação do antropólogo francês serve a outro propósito, qual seja o de sugerir que o narrador é um bricoleur pelo “fato de operar com materiais fragmentários já elaborados” (LÉVI-STRAUSS, 1976, p. 37), mesclados aos de sua própria invenção para construir A rainha dos cárceres da Grécia.
E é na condição de bricoleur queo narrador se apropria de dois fragmentos de um livro de Luís da Câmara Cascudo (1956, p. 195-196 e p. 188-189, pela ordem), para interpretar interessantes passagens do livro da amada em que as marcas da presença holandesa no Brasil são aproveitadas tematicamente – registros fixados no diário, nas datas de 17 de maio e 8 de junho de 1975, respectivamente. O passado histórico e geográfico de Pernambuco, terra natal de JME, particularmente de Recife e de Olinda, cidades nordestinas onde são mais flagrantes as lembranças da cultura holandesa, é usado com diferentes fins, tanto pelo narrador quanto por JME.
Não é possível, dadas as reduzidas dimensões físicas desta comunicação, desenvolver com a razoável e necessária atenção, o tópico sobre a memória histórica dessa presença holandesa em Pernambuco.
Uma das probalidades funcionais desse aproveitamento é identificado pelo narrador. Observa ele que a narradora de “A rainha dos cárceres da Grécia”, Maria de França, realça a vitória do estrangeiro, contrariamente ao ufanista costume nacional de exaltar o sucesso das tropas pernambucanas.
Para o narrador, a menção da derrota dos brasileiros para os invasores holandeses assume, no romance escrito por JME, conteúdo simbólico:
Deve-se observar, porém, que A Rainha dos Cárceres da Grécia exclui da sua temática o triunfo. (...). A heroína, membro de uma classe oprimida, bate-se durante anos contra a burocracia que a desnorteia e cuja língua tenta aprender, sempre em vão. (...)
Mais verdadeiro e significativo que Julia M Enone tenha minado o seu livro com cenas de ocupação e não de expulsão do invasor: elas refletem melhor a nossa realidade e a realidade de todos os países hoje ocupados – pelas armas, pelo ouro e por instrumentos menos palpáveis (LINS, 1977a, p. 138).
Como se percebe, ao final do trecho citado, o narrador envereda por comentários de ordem política, tipo de reflexão freqüente no texto.
Ao colecionar extratos de textos alheios, o narrador converte-os em matéria romanesca, construindo uma malha narrativa em que o princípio intertextual atua decisivamente para a deflagração do sentido literário.
A série de fragmentos jornalísticos, noticiando o entrave da máquina burocrática e o papel do presidente do INPS para solucionar os problemas do sistema previdenciário oficial encontra correspondência explícita no romance de JME, além de inúmeras outras aproximações com o noticiário em geral, às vezes, destacadas pelo narrador: “e porque o assunto, a meu ver, integra o mundo de Maria de França, resumo a matéria hoje estampada no Diário Popular” (LINS, 1977a, p. 51).
No romance de JME, a protagonista e narradora, Maria de França, é uma mulher do povo, tentando obter aposentadoria, sem sucesso, prejudicada por contratempos os mais diversos: médicos corruptos ou incompetentes, falta de documentação hábil, intervalos de contribuição previdenciária não comprovados e outros. O narrador, ao colar os recortes de jornais e revistas no seu diário, sem comentá-los, na maioria absoluta dos casos, limitando-se apenas em registrá-los, induz o leitor a formular a correspondência existente entre o noticiário jornalístico e a experiência da personagem, suspeita que se confirma, quando o leitor percebe as relações intertextuais evidentes entre a matéria jornalística e o texto ficcional.
Aproximando arte e vida real, o narrador mostra que as coincidências são intencionais e não aleatórias ou ocasionais. Perdidas nas folhas do periódicos, a denúncia que, eventualmente, se detecta desse tipo de comunicação, se torna ineficaz pela natureza efêmera do jornal, veículo de memória fugaz e descartável, pela repetição ou mecanização das informações. Ao contrário, inserindo a notícia no corpo do romance, confere-lhe a necessária sobrevida que lhe garante o mínimo de eco na consciência do leitor, mesmo o mais alienado ou distraído:
9 de outubro
Os maiores problemas desta organização – afirma o Sr. Reinhold Stephanes – se resumiriam em um, praticamente: falta ao Instituto Nacional de Previdência Social uma política de previdência e de assistência social (Entrevista ao Jornal da Tarde, S. Paulo, 3-10-74) (LINS, 1977a, p. 33)
O romance construiria, no plano do imaginário, de maneira organizada e exemplar, o mesmo mundo que se encontra disperso e fragmentário na vida real, representando, em última instância, a voz da denúncia social, memória incontestável de todas as outras memórias textuais e discursivas.
A rainha dos cárceres da Grécia é a memória da própria tradição romanesca. Remete a todos os tipos canônicos do romance: o romance de notas do século XVIII (identificado pelas notas de rodapé), o romance-folhetim do Romantismo (as peripécias mirabolantes vividas por Maria de França), o romance confessional e intimista do século XIX (a escrita do diário), o romance naturalista com seu vezo documental (as colagens de material jornalístico) e o romance pós-moderno, ávido de narcisismo literário, olhando embevecido para o próprio umbigo.
Referências Bibliográficas:
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COMPAGNON, Antoine. O trabalho da citação. Belo Horizonte: Editora da UFMG, 1996.
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HUTCHEON, Linda. Poética do pós-modernismo. Rio de Janeiro: Imago, 1991.
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LINS, Osman. A rainha dos cárceres da Grécia. 2. ed. São Paulo: Melhoramen tos, 1977a.
_____.
O ensino universitário. Do ideal e da glória: problemas inculturais brasileiros. São Paulo: Summus, 1977b.
_____. Em cada novo livro, toda a nossa vida. Evangelho na taba – outros problemas inculturais brasileiros. São Paulo: Summus, 1979. p. 151-160.
_____. Encontro com Osman Lins. Evangelho na taba – outros problemas. inculturais brasileiros. São Paulo: Summus, 1979. p. 250-253.
PAES, José Paulo. O mundo sem aspas. Transleituras. São Paulo: Ática, 1995.
RIFATERRE, Michael. A ilusão referencial. In: ___. et al. Literatura e realidade. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1984.